(Conferência em Memória de Ruth First na passagem dos 25 anos do seu assassinato)
Centro de Estudos Africanos, Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 17 de Agosto de 2007
DO FAZER ANTROPOLOGIA
Ao Paulo Langa, que não teve tempo
Perdoar-me-ão o tom pessoal desta comunicação mas o convite para a participação nesta homenagem a Ruth First impeliu-me a uma reflexão fragmentária, que nele tomou forma. Entenda-se como tal por um lado uma reflexão autobiográfica, impressiva até. E por um outro lado, como se aproveitando este momento para um ponto de ordem, procurando enquadrar um auto-posicionamento actual em termos profissionais, o cujo assume a homenageada como ponto de partida mas em muito a ultrapassa. Nestes próximos quinze minutos procurarei cerzir os tais fragmentos, nisso esperando alcançar alguma coerência.
Óbvio é que o tom pessoal pelo qual aqui opto não deriva de qualquer contacto meu havido com First, que não conheci. Mas o facto da sua memória estar marcada em mármore à entrada daquele que é desde há anos o meu local de trabalho, e em cujo andar cimeiro foi vilmente assassinada, fá-la pertencer de modo inequívoco ao meu quotidiano laboral. Mais ainda, a sua recorrente evocação pelos colegas mais veteranos permite-me entrever a relevância que assumiu em tão crucial momento do mundo académico moçambicano, bem como reter eco da sua personagem intelectual e militante.
E são exactamente esses seus traços, em particular a dimensão de intelectual-militante, que me impelem a uma reflexão autobiográfica no momento em que participo nesta homenagem nos vinte e cinco anos do seu assassinato, algo que me obriga a regressar a mim próprio, ao meu contexto nessa altura, quando entrava na idade adulta e nos estudos universitários. Como disse o heterodoxo historiador Ernst Nolte “A ideia de que cada um é filho da sua época é evidentemente uma banalidade, mas nem toda a gente vive na mesma época nem na mesma situação.” (Furet & Nolte, 1999:97), com isto frisando as armadilhas da aparente contemporaneidade, em particular no respeitante à relação do pensamento com a política. Ou seja, olhar First, ou qualquer outro autor, implica a recusa desse vício de pensamento, a homogeneização cronocentrista, particularmente activo se dedicado ao diálogo entre essa camada precocemente globalizada, a intelectualidade. Entenda-se, não é o calendário que nos molda. Mas é o calendário que nos produz generalizações simplificadoras, e é de uma dessas que aqui tentarei traçar história e corolários.
Significo com isto o quão diferente era o meu berço sócio-intelectual daquele em que vingou First. Se aqui o inimigo tinha sido o colonialismo e era a ditadura racista sul-africana, inimigo político, militar, e cuja premência imprimia o trabalho intelectual, o meu contexto era bem outro, e o cujo lembro até para o partilhar com os colegas mais novos para os quais tudo isto é mera história já recôndita. Li Marx com Aron e não com Althusser. Aprendiz de antropologia e sabendo-a talvez a tal arte narrativa que o primum inter pares Evans-Pritchard anunciou, e sendo ela filha legítima do romantismo tendo porventura como alter ego o superior método do romance, aprendia os homens e o mundo através deste. E assim, num mundo então olhando, temeroso ou esperançoso, a opção União Soviética conheci a “alma russa” primeiro com Tchekov e depois com Tolstoi e não com Gorki (apesar deste). Do “socialismo real” aprendi com Boulgakov e não com Cholokov e depois com o inultrapassável Céline, e às suas utopias temi-as com Orwell. O ícone Guevara apagava-se diante da razão Sakharov. Filho de comunista cresci em infindáveis e nada freudianos debates teóricos e políticos, nos quais meu pai António me transmitiu companheiro gosto pela contra-argumentação, as delícias da ironia e tiques de advogado do diabo. O inimigo de então - político mas também intelectual - era o comunismo, o marxismo, assustador na sua expansão mundial, em África e na Ásia. A democracia, essa que alguns adjectivavam pejorativamente, de “formal”, encolhia-se, olhando angustiada na sua retaguarda a particular leitura que os Estados Unidos faziam da velha doutrina Monroe, produzindo e reproduzindo ditaduras fascistas (passem os purismos tipológicos da ciência política) sul e centro-americanas, então justificadas na lógica do confronto bipolar. A esquerda europeia sucumbia quase unanimemente aos encantos da novel teocracia reaccionária iraniana e silenciava-se silenciosamente (tal como hoje) face às movimentações, então de aparência sinuosa, da autocracia colonialista chinesa, coisas do anti-americanismo mas também já avatares desse multiculturalismo (paradoxalmente filho da ideologia do apartheid) que a vem ainda alimentando. Em suma, nessa época Fukuyama nunca escreveria a sua vulgata “O Fim da História” pois a escatologia de então apontava o temor da guerra nuclear, que nos unia em torno do slogan “No Nukes”, e não esse seu paraíso do capitalismo multipartidário, que apenas uma década depois ele pôde aventar.
Jovem estudante para mim estranho era a participação dos tantos intelectuais neste contexto. Caloiro ainda lembro-me do meu desconforto face ao encanto radical havido com um dos primeiros livros universitários, “Horizontes da Antropologia” de Maurice Godelier, apesar do autor se reclamar (e em obra tardia já de 1973) não como praticante de Antropologia mas sim da ciência do materialismo histórico. Como era possível tamanha cumplicidade? Era a questão que viria, bastantes anos depois, encontrar sistematizada em Arendt, autora então por mim desconhecida: que terá provocado no século XX tamanha atracção pelos totalitarismos mais extremados no seio das massas, dos políticos e, em particular, dos intelectuais? E como os olhamos, a estes últimos, deste nosso deles futuro? Se os gigantes Heidegger e Junger passaram pelo justificadíssimo crivo da crítica pela sua associação (muito explícita e apenas algo implícita, respectivamente) ao horror nazi como não alargar o nosso espectro do espanto? Ainda há pouco lendo um texto de Omar Thomaz (2006) encontrei uma citação de John Saul, esse canadiano observador do processo moçambicano, louvando a evacuação de Phnom Phnen na alvorada do regime de Pol Pot, essa mesma que gerou uma tenebrosa hecatombe. Como gerimos nós essa herança, a da relação com a intelectualidade comunista de XX, ainda que necessariamente pesando as suas inúmeras diferenciações internas. Que conclusões tirar?
Vinte e cinco anos depois participo nesta homenagem a uma intelectual comunista. Nisso acompanho colegas, gente amiga e mestre que tanto me tem ensinado, intelectual e afectivamente, e que de First me tem transmitido vibrante e complexa imagem de seriíssima investigadora, enérgica líder académica e de cidadã com extrema coragem física e moral. Colegas amigos esses com os quais tenho concluído partilhar, bem para além de diferenças biográficas e de formação intelectual, algo fundamental no exercício teórico da ciência social: a de uma ligação ética com o real (questão a que já voltarei).
Que conclusões tirar então deste meu aparente paradoxo, homenageando uma comunista? Que saúdo a memória de First, como exemplo dos que se consagraram em prol daqueles realmente explorados e indignificados. Mais ainda, como exemplo desses que em nome dessas lutas prescindiram de privilégios de classe social ou, neste particular, derivados dessa mítica identidade racial cuja opressiva omnipresença é também uma herança do século que abandonámos. Mas para além dessa homenagem pessoal que implicações para o exercício profissional?
- A primeira implicação será a de matizarmos as nossas certezas ideológicas, um corolário de tolerância. Não no sentido actual em que se anuncia ideologicamente o “fim das ideologias” ou “das grandes narrativas”, construção dita pós-moderna cujo desconforto poderei resumir com Wieviorka: “quando julgamos viver a agonia de um mundo incapaz de se designar a si próprio senão por aquilo que já não é, pós-moderno, pós-industrial, pós-nacional, não é absurdo reflectirmos sobre o mundo que poderia nascer, que já está a nascer, e cujo parto, por muito doloroso que seja, não exclui a esperança.” (1995: 14). Isto em particular quando todo este discurso “pós-ideológico” está envolvido no domínio radical da “grande narrativa” capitalista liberal.
Mas a questão está bastante para além disso. Ela reside na afirmação, aparentemente pueril mas que a história recente tentou negar, de que o diálogo inter-ideológico é possível (e que tem que ser possível). Contra o irredentismo irracional do multiculturalismo relativista afiançou Popper (1999) que a tradução inter-cultural, e por esta entenda-se o diálogo racional e produtivo, é possível e cumulativo. Ou seja, o mito das sociedades / culturas estanques, herméticas, impermeáveis ao entendimento e à contra-argumentação é uma falácia, tal como o é assumir a correspondência entre essas putativas formas culturais essenciais e formas organizacionais específicas. Entenda-se, a razão (e esta significa também um compromisso ético com a procura da verdade) permite o diálogo, a inter-aprendizagem e a inter-sedução entre culturas, e nesse caminho o progresso do entendimento e do saber, por limitado que seja. Por extensão, e até de modo sublinhado, afirme-se o mesmo estatuto de inter-cognoscibilidade para o diálogo inter-ideológico, condição para matizar a nossa adesão a estes edifícios mais ou menos sistematizados, assumi-los de modo humilde, dar-lhes uma dignidade modesta. Dir-se-ia, coloquialmente, que então usar a razão é ter razões, não ter a razão.
Se isto permite afastarmo-nos da ideologia relativista (que não do método relativista) permitirá também pôr em causa alguns fenómenos que dela derivam – e neste aspecto quero aqui realçar com particular ênfase a possibilidade da recusa dos essencialismos dados ao neo-tradicionalismo. Aprendemos com Hobsbawn e Ranger (1983) da qualidade processual e (re)inventiva da tradição, e a eles aqui apelo no sentido de fazer lembrar que a afirmação da possibilidade do diálogo inter-cultural (e inter-ideológico) implica recusar a reificação das formas organizacionais, institucionais e ideais, dos processos sociais. Num plano ainda mais vasto isto significa recusar os apelos à pluralidade epistemológica, muito em particular aqueles que arvoram a possibilidade de um enquadramento conceptual ou um enraizamento disciplinar em contextos geográficos ou “civilizacionais” (como por exemplo a anunciada “sociologia africana”). E assim reclamar a universalidade científica, a sua unidade a qual em nada é sinónimo da sua unicidade.
- A segunda implicação que retiro relaciona-se com a concepção de processo histórico. Homenagear sentidamente alguém de que provavelmente tanto discordaríamos se face-a-face implica não só render-me à grandeza pessoal e intelectual da autora (ou de um outro qualquer autor). Implica ainda, até com humildade, reconhecer que as formas existenciais vividas pela minha geração e nacionalidade, bem como pelo meu país de acolhimento, vividas em paz (essa que parece eterna mas tão volúvel é), em relativa abastança e em óbvio progresso (e este conceito está aqui propositadamente colocado) foram produzidas pelas acções conflituantes, pelo pensamento, sofrimento e até sacrifício (como o é o caso homenageado) de inúmeros vultos com os quais discordamos radicalmente. Ou seja, são eles o húmus sobre o qual nos erguemos. Não é uma crítica moral ao anacronismo que aqui exerço, mas sim uma extensão do conceito de serendipidade que Umberto Eco (2000) nos propõe – de um modo não teleológico mas sim conjuntural, quiçá meramente incidental, concepções, acções e objectivos que reputo de errados estruturaram uma condição actual que afirmo filosoficamente aceitável, num sentido historicamente provisório.
Assim sendo, e nem que seja por mero exercício de prudência reflexiva, também às minhas concepções, acções e objectivos, leia-se ideologia, as deverei aceitar como prováveis futuras serendipidades, erros com inesperados (e até positivos) efeitos, algo não apenas devido às fragilidades das minhas (ou outras quaisquer) concepções mas também, e fundamentalmente, pela desordenação do mundo social e imprevisibilidade dos efeitos actuantes, esses que Boudon (1990, 1998) tanto sublinha.
- Permito-me ainda retirar uma terceira conclusão para o exercício profissional. Esta refere-se ao estatuto do cientista social na sociedade, e em particular à sua ligação com o poder. Recorro aqui explicitamente a Norberto Bobbio (1997), que nos lembra ser este a tradução do velho problema filosófico da relação entre teoria e prática (ou entre razão e vontade), cuja discussão sabemos polarizada entre a visão platónica de submissão da política (prática) à filosofia (teoria) e a visão kantiana, de necessária separação entre ambas dado que entendendo a política como corruptora do instrumento da filosofia, a razão. Não pretendo, melhor dizendo, não me atrevo a discutir tamanho entroncamento da história do pensamento. Apenas transmito a minha opção – e exactamente pela desconfiança face às minhas e alheias configurações ideológicas, pela arrogante modéstia da minha adesão, concluo não ser o local político o adequado ao pensamento social. Bobbio transporta-nos até B. Croce, o qual diferencia a missão dos intelectuais e dos políticos: aos primeiros compete a missão moral de defender o valor da liberdade, esta como ideal da humanidade. Essa separação implica uma tripla distinção: um diferente tempo de acção e reflexão, sendo longo o tempo da acção intelectual e de curto prazo a política; uma diferente função, estando aos intelectuais destinada a crítica (cujo primeiro passo, digo eu, terá de ser o de desmontar a semântica vulgar do termo “crítica”, devolvendo-o ao seu verdadeiro sentido, construtivo); e uma diferente ética fundadora, da convicção para os intelectuais, de responsabilidade para os políticos. Finalmente, frisa Bobbio, o grau de desenvolvimento de uma sociedade ver-se-á na interacção entre prática política e intelectual, aquele crescente consoante não só o grau de liberdade como também de de autonomia que a actividade intelectual assume.
Concluo que ao exercício profissional se elege um horizonte crítico do social, um pouco à criticada imagem criada pelos racionalistas franceses de XVIII. Mas a esta minha opção não associo a imagem de então do intelectual desvendador, iluminador. Ou seja o seu papel não será o de sedimentar o desencantamento do social já reconhecido por Max Weber. Pelo contrário, é ele o desencantado, exercendo a sua razão, triste, metódica, enfadonha, em suma meramente burocrática. Sendo que é essa quotidiana e nada exaltante prática a que se adequa à vida democrática, tão alheia às elevações carismáticas. Pois o ideal romântico, lamentar-se-ão os antropólogos, afinal está na política.
Mas com isto regresso a Bobbio, e à sua distinção entre intelectuais ideólogos esses “que fornecem os princípios-guias, produzem consenso e dissenso, os princípios, valores, ideais, concepções do mundo” e intelectuais especialistas esses “que fornecem conhecimentos-meios, que são técnicos necessários para a resolução dos problemas”. Como ser antropólogo então? Tenho vindo a referir sistematicamente um compromisso ético com o real como sustentáculo da prática científica, neste caso antropológica. Com isto significo simplesmente dar o primado ao real, sabendo-o é certo que construído pelos nossos artefactos metodológicos e portanto teórica e conjunturalmente estabelecido.
A questão é que temos vindo a ser arrastados para o exercício, certo que livre mas nada autónomo, da função de intelectual especialista – agendas desenvolvimentistas, académicas ou não, nacionais ou internacionais, cristalizam modalidades de acção antropológica (problemáticas, métodos e técnicas, conceitos e, claro, conclusões). Entendo que esta padronização e superficialização da investigação antropológica provém não só do rolo compressor da indústria desenvolvimentista. Também da desvalorização societal do exercício intelectual. Mas mais, no nosso caso disciplinar provém ainda de restos de um sempre propalado pecado colonial, perdão, original, que ainda a desvaloriza. É recorrente a figura do aluno mais ou menos recém-chegado que nos interpela com a imagem da Antropologia ciência do colono, arma do colonialismo. Esta visão absolutamente redutora foi até surpreendentemente ecoada pelos mais renomados sociólogos moçambicanos, Elísio Macamo em aula inaugural de recente ano lectivo da então UFICS e Carlos Serra no seu “Ciências, cientistas e investigação” (2005) – que transcreve as suas provas de ascensão a catedrático (?!) - no qual abordando a emergência das ciências sociais reduz a antropologia a qual segundo esse autor “nasce nas colónias para ajudar os colonizados a pagar impostos e a trabalhar nas plantações”(27).
Tamanhos reducionismos, para além de elidirem o hoje óbvio facto da distinção disciplinar ser bem mais fruto da história da Academia e da sociologia da Academia do que a razões de índole científica, traduz dois factos que urge denunciar: uma desinterpretação da história da disciplina, estranha nos eruditos, normal nos neófitos, passível de ser discutida com mero recurso a bibliografia (primária ou secundária); e, bem mais grave, causa a sedimentação de uma imagem de uma disciplina meramente instrumental (os antropólogos como “intelectuais especializados”) – com efeito é como se esta, expurgada da missão colonial, possa aparecer como passível de ser utilizada para os fins desenvolvimentistas, ou seja, de mudança social “consensualmente” definidos. No entanto no domínio da crítica (os antropólogos enquanto “ideólogos”) já essa condição surgirá deficitária, pois o aparato metodológico antropológico mais dificilmente surgiria purificada dos pressupostos etnocêntricos, evolucionistas, racistas ou meramente “ocidentais” que lhes dizem constituintes. Ou seja, o constante e serôdio agitar do vínculo colonial da antropologia intenta reduzir a sua prática à função de especialista, intenta reduzir o espectro da sua actividade, a legitimidade das suas conclusões.
Não tenho aqui o tempo para traçar, grosseiramente que fosse, o percurso da antropologia e a sua relação com os ambientes políticos nos quais se formou. Recordo apenas que no seguimento de textos como o de Asad (1973) e de Leclerc (1973) a crítica desse vínculo foi radical, remontando à própria Antropologia Filosófica de extracção ocidental. Inúmeras vezes se refere a expressão hegeliana de que “o negro não tem história” – perfeitamente inscrita no evolucionismo do filósofo, transcrito no seu seguidor Karl Marx mas neste último não tão denunciado pelos habituais plumitivos –, como paradigma da impossibilidade de en nele ancorando a inevitabilidade da tresleitura na abordagem científica ao outro. Lamentavelmente tais abordagens não são tão céleres em recuperar a radical afirmação da unidade do género humano, da sua distinção em indivíduos e não em putativas raças, e da fragilidade das abordagens então iniciais de cariz racialista, produzida por Immanuel Kant. Nem tão pouco se recorda com a mesma celeridade a obra-semente de Herder, propiciadora do quadro para o comparativismo societal.
Mais, o facto da antropologia brotar de uma dualidade de abordagens, o estudo das culturas primitivas exo-europeias e o estudo dos costumes e tradições europeias (matriz aliás da metodologia etnográfica), onde se encontram processos de complexas similitudes e dissemelhanças na relação com tais universos, com exotização e desvalorização dos objectos, filhos não só do etnocentrismo mas também do sociocentrismo espontâneos, e ambos inscritos em projectos políticos de sedimentação estatal-nacional, foi bastas vezes olvidado, possibilitando reduzir os fenómenos de desvalorização do objecto produtos do sentimento de superioridade social a meros fenómenos etnocêntricos, quando não racistas.
Quanto à pragmática relação entre antropologia colonial e regime colonial pelo menos desde Adam Kuper (1973), contemporânea das obras acima referidas, se descreve a incomunicabilidade entre antropólogos e administrações, algo posteriormente reconhecido pelo próprio Asad (1991). E para além das posições críticas sobre o mecanismo colonial assumidas no seio da corporação, será conveniente recordar ter sido no seu seio que se estabeleceu o discurso científico negador da desvalorização da cultura alheia, da individualidade alheia, para o qual não será preciso recordar a sempre citada “Raça e História” de Levi-Strauss. Finalmente a própria crítica dos pressupostos eurocêntricos (ocidentalocêntricos) da antropologia está no cerne da sua prática. Entre tantos outros exemplos recordo o texto de Mary Douglas (amplamente citado por João Pina Cabral) demonstrando a pluralidade nacional, continental, “racial”, de género, político-ideológica do núcleo condutor da antropologia britânica (a mais representante da antropologia no regime colonial), basto crítica da própria noção de ocidente, e de sua vinculação a tal poder.
Não pretendo aqui salvar a imagem da disciplina. Apenas assim recordar a sua dinâmica não-instrumental, mas sim crítica, e a legitimidade desta sua actuação. Tenho vindo a vincular esta posição a uma relação ética com o real – com isso significo o pressuposto fundamental de não lhe atribuir pressupostos e orientações: ao futuro, mas também ao presente e ao passado. Atitude dificilmente respeitável por quem interroga o real impondo-lhe rumo, e assim permitindo um superavit de surpresa nas conclusões, donde de conhecimento.
Permito-me terminar exemplificando esta dimensão com uma obra que considero charneira no domínio das ciências sociais em Moçambique. Ele próprio intelectual do seu tempo, empenhado (veja-se o sentido enquadramento que dele e de seu mestre faz Rafael da Conceição em obra a publicar brevemente), Christian Geffray interrogou teoricamente a sociedade que constituiu objecto. Criticável (como o é qualquer obra de relevo) será decerto o seu “Trabalho e Símbolo na Sociedade Macua”, talvez excessivamente preso a modelos teóricos por ele herdados. Crucial será a sua crítica da ideologia do parentesco, transcrita no “Nem Pai nem Mãe”. Mas não posso deixar de lembrar o “A Causa das Armas”, teoricamente menos interessante, mas na altura uma outra abordagem da realidade, menos assertiva. Deixando o real falar, não lhe impondo rumos. Agito com isto um real essencial? Não, apenas saliento o primado do seu significado sobre as nossas vontades.
Como acabar este já excessivo texto? Para nós antropólogos a nossa arma, arma revolucionária, arma crítica, é a observação participante – por muito criticada que tenha sido, por romba que esteja a lâmina, por encravada que esteja a culatra. O inquérito, a entrevista fechada, essas são as armas do capital …
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bobbio, Norberto, 1997, Os Intelectuais e o Poder, São Paulo: UNESP
Boudon, Raymond, 1990 (1984), O Lugar da Desordem, Lisboa: Gradiva
Boudon, Raymond, 1998 (1995), O Justo e o Verdadeiro. Ensaio Sobre a Objectividade dos Valores e do Conhecimento, Lisboa: Instituto Piaget
Eco, Umberto, 2000, Serendipities, London: Phoenix
Fukuyama, Francis, O Fim da História, Lisboa: Gradiva
Furet, François & Nolte, Ernst, 1997, Fascismo e Comunismo, Lisboa: Gradiva
Geffray, Christian, Travail et Symbole dans la Sociétè Makhuwa
Geffray, Christian, Nem Pai Nem Mãe
Geffray, Christian, A Causa das Armas. Antropologia da Guerra
Godelier, Maurice, (s/d [1973]), Horizontes da Antropologia, Lisboa: Edições 70
Pina Cabral, João de, 2004, Aprender a representar: democracia como prática local, Comunicação apresentada no Seminário Temático “Pós-Colonialismo, pós-nacionalismo, pós-socialismo: a democracia como suspensão, a demanda por uma nova normalidade”, em XXVIII ANPOCS, 26/30 Outubro, Brasil
Popper, Karl, 1999 (1996), O Mito do Contexto, Lisboa: Edições 70
Serra, Carlos, 2005, Ciências, Cientistas e Investigação (Manifesto do Reencantamento Social), Maputo: Imprensa Universitária
Thomaz, Omar Ribeiro, 2006, “Campos, Aparato Repressivo e Construção Social do Inimigo. Notas sobre a cooperação da RDA em Moçambique”, in
Wieviorka, Michel, 1995 (1993), A Democracia à Prova. Nacionalismo, Populismo e Etnicidade, Lisboa, Instituto Piaget