31.8.07

APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE ANA BÉNARD DA COSTA

(Maputo, Instituto Camões, 29 de Agosto de 2007)


Apresentar o livro da minha colega Ana Bénard da Costa é para mim um prazer. Mandam os estranhos protocolos e etiquetas que abundam nestas coisas públicas da academia que os apresentadores se auto-desvalorizem face aos autores das obras, o eterno dito tipo “outros haveria mais capacitados para aqui estarem no meu lugar”. Desritualizemos então estes momentos, isto no sentido de desmitifiquemo-los. Desmitificação que é coisa que urge na academia … (e não só na moçambicana).

Ou seja, afinal quero dizer que apresentar o livro da minha amiga Ana Bénard da Costa é para mim um prazer. Outros haveriam mais capacitados para aqui estarem, com toda a certeza. Mas estando aqui como amigo (colega também, mas fundamentalmente amigo de quem tão amigável é) duvido que sejam muitos os que efectivamente o estarão. E não divago qual lágrima no olho, no habitual tom sensitivo de quem, afinal, sente que pouco tem para dizer. Ou então por não querer magoar expressando as necessárias e salutares discordâncias, as quais sempre surgem na leitura alheia. Expresso-me assim pois estou crente que a amizade, e a sua siamesa honestidade, são poderosas armas epistemológicas. Porventura os maiores artefactos do conhecimento. Diante dos objectos que construímos para estudar. Diante dos outros sujeitos que connosco os constroem – não em concorrência, nunca em concorrência. E isto, repetindo que falo de epistemologia, porque o real não é por nós apropriável, donde o objecto nunca é matéria concorrencial. Entenda-se pois que quando esta (a concorrência) desponta, por vezes travestida de cristalizações disciplinares ou de enquistamentos teóricos, ela corresponde fundamentalmente a compitas por recursos (económicos e estatutários), essas sim motrizes desse antigo e actual fenómeno de “vaidização” do intelectual, assim transformado em avatar dos velhos mestres das guildas pré-renascentistas. E é pelo facto de que quando com a Ana Bénard da Costa estarmos tão longe desse mundo, esse que um célebre sociólogo chamou de “distinção”, que é tão grande a minha gratidão para com ela por aqui me ter colocado a seu lado.

Estou aqui pois para uma breve apresentação, que não um resumo (desses que quase esgotam a premência da leitura individual, pois quanto muito gostaria de apelar à leitura e não o contrário), de “O Preço da Sombra. Sobrevivência e Reprodução Social entre Famílias de Maputo” (Lisboa, Livros Horizonte, 2007), livro que apresenta o trabalho de doutoramento de Ana Bénard da Costa em Estudos Africanos Interdisciplinares em Ciências Sociais, obtido no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa - casa onde fomos colegas de mestrado (tal como a Inês Teixeira, aqui presente) no já longínquo início da década de 90, e em cujo âmbito Ana Bénard da Costa produziu uma tese: “Estudos de Famílias Deslocadas na Cidade de Maputo. Análise de Relações e Comportamentos sócio-económicos”, concluída em 1995. Se a isto juntarmos outros trabalhos sobre a realidade maputense, incluída em equipas multidisciplinares, bem como os seus actuais projectos de investigação que aqui desenvolve (enquanto investigadora do Instituto de Investigação Científica e Tropical de Lisboa), e até pela sua estadia enquanto cooperante nos CFM nos meados dos anos 80, podemos constatar que este livro/tese é um momento crucial de uma longa atenção que a autora vem dedicando sobre este contexto socioantropológico. Mais ainda, de uma paixão, profissional e afectiva, sobre esta realidade. A qual não termina com este livro, por mais central que ele surja na sua carreira. Talvez por isso mesmo gostaria de aqui sublinhar o facto, não universal, de ela aqui estar, em Maputo, apresentando o seu trabalho (como há bem pouco o historiador Zamparoni o fez), acto salutar que deveria fazer parte dos processos de investigação sobre realidades outras. Deveria, mas não faz – e muito em particular no seio da corporação antropológica, por definição e tradição mais atreita a trabalhar em contextos longínquos aos próprios dos investigadores. Entenda-se, com isto procuro sublinhar que o objecto de análise é o nosso primeiro público (mesmo que isso possa parecer uma pobre homogeneização do “público” Maputo, esquecendo as dinâmicas sociológicas de apreensão dos textos e as obrigatórias mediações a que elas obrigam)..

Deste livro gostaria de salientar alguns pontos, escolhidos enquanto alavanca de diálogo com algumas ideias mais correntes e talvez a precisarem de maior confronto, ainda que porventura não necessariamente aqueles que uma abordagem estritamente académica elegeria. Bénard da Costa trabalhou, fundamentalmente entre 1999 e 2001, com famílias de bairros do Maputo, o tradicionalmente intitulado “caniço”, a já tradicionalmente designada “periferia” – denominação esta talvez até mais problemática ou anacrónica do que a anterior – bairros esses escolhidos segundo os seus diferentes níveis de urbanidade: estamos diante de um trabalho de observação participante decorrido nos bairros de Hulene B, Polana Caniço A e Mafalala, assim procurando alcançar diferentes tipos de existência social no seio de Maputo e, até, diferentes contextos históricos de formação dos agregados residências e populacionais.

Que nos diz? A autora parte de uma interrogação primeira: sobre que estratégias organizativas têm tido as famílias para se reproduzirem, biológica e socialmente, enquanto unidades sociais efectivas, significantes, em particular num contexto económico que considera adverso e presente nos movimentos de urbanização em torno de Maputo, a deslocação durante as últimas gerações de população rural para os bairros limítrofes da cidade capital.

[E é este o grande incómodo que me causa a leitura da obra, a implícita e por vezes explícita constatação de um contexto económico adverso. Quais os critérios antropológicos com que defrontamos a definição da adversidade económica? Questão bem mais vasta do que a abordagem desta obra exigirá, e de presença recorrente no discurso sobre as realidades socioeconómicas moçambicanas. E não só. Entendam-me, estudar as modalidades de migração rural para as cidades enquanto fenómeno existente num contexto economicamente adverso surge, de modo sistemático, afirmando este último como indiscutido. Ou seja naturalizado – e a leitura deste livro levanta-me de novo a questão constante, a da exigência de relativizarmos, historicizarmos, a noção de adversidade económica].

A sua conclusão – que lhe advém já, como produto amadurecido de investigação prévia, da sua investigação sobre as famílias deslocadas no contexto da guerra civil moçambicana – é a de que as estratégias de sobrevivência familiar implicam a dispersão económica e geográfica dos seus membros.

Para nós antropólogos é então notória a apresentação de um diferente modelo de família, o da “família dispersa”. São hoje aqui prementes as questões sobre a instituição familiar (surpreendentemente até a afirmação da sua efectiva dimensão institucional surge por vezes necessária no actual contexto intelectual nacional) – seja sob o ponto de vista das reformas legislativas existentes, seja sob o ponto de vista das práticas de transformação sociocultural induzidas por Estado e organismos nacionais e internacionais, laicos e religiosos de diversa índole, e que recaem sobre as formas de organização familiar.

Mas é também necessário recordar ser esta problemática do conteúdo processual destas unidades sociais primárias (as famílias) um património teórico tradicional da nossa abordagem às realidades sociais enquanto antropólogos, quantas vezes definidos e auto-definidos por meras questões metodológicas, esquecendo assim o primado que a análise da família e do parentesco assumiu no delinear da nossa particular identidade disciplinar. Assim sendo ler Bénard da Costa é, para nós antropólogos, também (mas não só) um regresso à nossa matriz – o que, torna-se evidente, interroga a pertinência da categoria “Estudos Africanos” sob a qual a autora se albergou no prosseguimento dos seus estudos, interrogação extensível a qualquer classificação geográfica das abordagens analíticas.

Esta “família dispersa” é-nos apresentada através de inúmeros exemplos das famílias abordadas, dos episódios das suas vivências, do constante movimento dos seus membros, assim verdadeiros agentes das suas modalidades de organização, da sua acção social e das configurações que assumem - objectos/sujeitos vivíssimos que nos surgem no discurso leve, escorreito que a autora casa com a fundamentação teórica. Assim, a um nível, é esta “família dispersa” assunto para reflectirmos, em diálogo com os outros modelos sempre presentes na nossa tradição teórica (e no discurso comum também): “família nuclear”, “família extensa”, “família elementar”, “família conjugal”, e alguns outros.

Resuma-se, afirma-se aqui (e vai-se etnograficamente narrando, ou seja, demonstrando) que as condições necessárias para a sobrevivência dos grupos familiares, como locais sociais de reprodução biológica (a “sobrevivência” nos termos da autora) e de reprodução social, enquanto instituições onde decorrem esses processos, implicam a dispersão geográfica, donde residencial, dos membros das famílias e a diferenciação profissional e económica (quantas vezes biograficamente oscilante) desses membros. Estes processos surgem como modalidades de potenciação dos diferentes capitais das famílias e de exponenciação das suas possibilidades reprodutivas (há quem aqui prefira referir a redução dos riscos de reprodução, o que denota uma nada suave diferente concepção antropológica dos processos sociais, mas isso é assunto quase filosófico a discutir noutro contexto).

Mas a afirmação dessa dispersão constitutiva surge depurando concepções e afrontando preconceitos (de senso comum e até antropológicos), uma verdadeira demarche antropológica – não se afirma aqui algum deficit nessas instituições familiares, não estamos diante de um superficial discurso que associaria “dispersão” à indução de anomia (familiar, donde social) ou mesmo de dissolução de laços intra-familiares ou entre famílias e outras instituições sociais mais abrangentes, e dos seus valores cruciais. Pelo contrário, o que Bénard da Costa nos deixa entender através dos casos familiares com que anima o livro é exactamente como a dispersão geográfica e a diferenciação profissional, e até cultural, dos seus membros são estratégias de coesão familiar, da manutenção destas unidades sociais primárias enquanto quadro de reprodução biológica e social dos indivíduos.

E ainda, como esta dispersão, mais ou menos planificada, implica profundas alterações no quadro organizativo e ideal familiar. Mas sendo essas transformações não disruptivas, pelo contrário, sendo apresentadas como modificações constitutivas - afinal apenas exemplo de como as instituições que conhecemos o são sempre produto de constantes alterações mais ou menos estratégicas ou planificadas da realidade histórica.

Mais ainda, ao analisar como os indivíduos reconstroem as suas ligações de parentesco, ancorados nas suas unidades familiares, e fundamentalmente em torno da manipulação dos direitos reais e espirituais relativos às suas “terras de origem” – estas enquanto fontes identitárias, ainda que mutáveis – Bénard da Costa demonstra como neste constante movimento (uma mobilidade circular como lhe surge) intra-familiar de indivíduos, bens materiais e espirituais, direitos e aspirações se ultrapassa a velha dicotomia, afinal sem sentido analítico, entre o rural e o urbano, entre a chamada tradição e a chamada modernidade. Esse movimento circular intra-familiar é afinal a fronteira hiper-porosa entre esses velhos pólos [rural-tradicional, urbano-moderno], verdadeiros fetiches do impensamento, assim derrubados “dentro de casa”, afinal eles de aparência poderosa mas ultrapassados na aparentemente mera rotina doméstica.

Do como isso vem acontecendo estão aí alguns livros para ler. E livreiros para encomendar mais.

Obrigado

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JPT
José Flávio Pimentel Teixeira, 44 anos, antropólogo, português, sportinguista, imigrante em Moçambique
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